horamorta

Quarta-feira, Junho 03, 2009

 

Santa Miséria

Paradoxo
Escolhemos a cidade que é famosa pelo stress causado pelo excesso de trabalho, pela violência no dia-a-dia, pela rotina que massifica, para ser nosso refúgio. Descansar, fugir da selva, do cheiro de mato, da umidade quente para o asfalto, o céu cinza e a fumaça. Alice, realidade e ficção. Silvícolas querendo ser abraçados pela máquina, índios querendo ser catequizados. A rotina vagarosa. Contrariando o ritmo de nossos corações, ela se apresentava morosa, morna, quente como o norte. Café as dez, almoço pouco importa, temos o dia todo, todos os dias. O sol só se põe as nove, nada tem que começar cedo.

Paradigma
Pequenas veias abertas, artérias, na verdade, pois cheias de vida, de oxigênio, de pessoas. Nas roupas, no estilo e no cabelo gritavam aquilo que ninguém queria ouvir, que ninguém tinha tempo e interesse, todos pequenas ilhas de repulsa e atração, como aquela ilha que foge do mundo, ninguém consegue achar mas não deixa ninguém ir embora. Quem não se importa de verdade, não se importa com nada, ali todos se importavam de ser, de fazer sentido, de ser (im)compreendido. Decifra-me e me devora.

Construção
O local estava todo empoeirado, colunas e estantes de livros se confundiam com a fundação do prédio, quem sustentava o que? Fitas de vídeo cassete eram a tecnologia mais moderna no local, havia um computador no balcão, para compor o contexto deveria ser um XT tela verde, DOS, no graphic user interface. Labirintos de papel offset, diagramação mal feita, tipografias datadas que envelheceram mal. Desnível, uma porta para outro cômodo, pornografia, turismo, jardinagem, organização complexa que faz todo sentido para um único individuo... será?

Objeto
230 páginas, capa dura, fonte serifada, corpo 24, letras douradas. Santa Miséria, título original: Hurskas Kurjuus, Frans Eemil Sillampaa, 1919. Prêmio Nobel de Literatura - 1939.

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Terça-feira, Maio 26, 2009

 

Teses sobre o conto, de Ricardo Piglia


"Num de seus cadernos de anotações, Tchékhov registra esta anedota: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo desse relato futuro e não escrito."

"
Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta, e narra sigilosamente a história visível até convertê-la em algo enigmático e escuro. Essa inversão funda o “kafkiano”.

A história do suicidio na anedota de Tchékhov seria narrada por Kafka em primeiro plano e com toda naturalidade. O terrível estaria centrado na partida, narrada de modo elíptico e ameaçador"



"A história visível, o jogo na anedota de Tchékhov, seria contada por Borges segundo os estereótipos (levemente parodiados) de uma tradição ou um gênero. Uma partida no armazém, na planície entrerriana, contada por um velho soldado da cavalaria de Urquiza, amigo de Hilario Ascasubi. O relato do suicídio seria uma história construída com a duplicidade e a condensação da vida de um homem numa cena ou ato único que define seu destino.


Fonte: Ricardo Piglia, Crítica y ficción (Bs.As., Siglo XX, 1993), pp. 75-79. Tradução I.Avelar.
O biscoito fino e a massa.

 

Duas capas





















link: http://nytimesbooks.blogspot.com/

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Segunda-feira, Março 23, 2009

 

kafka















http://christophehuet.com/

Quinta-feira, Março 05, 2009

 

Morreu o amor - Rafael Galvão

"Deu no Notícias Populares. Não foi na manchete de primeira página. A notícia estava escondida em uma coluna interna de uma página par. Morreu o amor depois de uma longa agonia. Morreu calado, cansado de procurar ao lado na cama um amor que já não estava lá. Antes morreu a paixão, uma morte violenta e triste — paixões morrem com escândalo, morrem com noventa facadas e gritos de ódio e desespero. Mas o amor morreu aos poucos; foi a vítima de pequenos ferimentos imperceptíveis infligidos a cada novo dia, de pequenas maldades e descaminhos. Amores não morrem como paixões, e por isso suas mortes são sempre uma lenta agonia, tão lenta que só é percebida em quando ele já está em estado terminal. Amores morrem aos pouquinhos, a cada pequeno golpe que a vida lhes inflinge. E ao morrerem, deixam em seu lugar um vazio que amantes jamais poderiam imaginar."

Domingo, Fevereiro 15, 2009

 

Desonra - JM Coetzee

Numa África pos-apartheid, David Lurie perde tudo, sua carreira, sua amante, sua dignidade. Cai em desgraça ou foi seduzido por ela? Para David, tudo era muito fácil, na verdade ele não residia na África, se morasse em Amsterdã, seu estilo de vida seria o mesmo, os problemas começam quando ele começa a ser relacionar realmente com o local onde vive. Começa a entender as diferenças entre esse dois lugares.
Desonra é um romance grande, até hoje fico pensando no que li e sempre acabo chegando a novas conclusões, completo teorias, descarto outras, penso, reflito, mudo de opinião, volto a conclusões que já havia descartado, fim de história. Depois de um tempo começo tudo novamente.
Passei alguma noites discutindo passagens e personagens com o João e a Joanne, leia-se discussão em seu sentido pleno, eles tem várias certezas, eu tenho poucas, deles, algumas opiniões foram consideradas outras descartadas, muito ainda ficou em aberto.
A relação com o livro, fica mais ou menos como na de David com os cães. David é voluntário em um centro veterinário, ele sacrifica os cães que ou estão muito doentes ou foram abandonados, nem de longe essa é uma tarefa mecânica para ele, nisso há muito significado e muito respeito, mas fica difícil de entender qual ou porque. Complexo não complicado, além dos cães, a filha, as amantes, o trabalho, o vizinho, o país. Nada é simples, nada é estável ou claro. Tudo com uma lógica grotesca e distorcida. David tem que achar um modo de se relacionar com isso, tenta sempre o que tende a gerar menos problemas. Raramente consegue.
Se há um livro que ficou engasgado foi esse, vou acabar lendo de novo, mas preciso de um tempo antes disso. Não se trata de não entender o livro, é mais sobre não conseguir assimilá-lo, não consegui digerir... ainda um pouco amargo.

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Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

 

DMZ - Brian Wood e Ricardo Burchielli

Ao contrário da maioria dos quadrinhos que comentei por aqui, DMZ é uma série que ainda não esta fechada. Esta sendo publicada no selo Vertigo e, por aqui, tenho acompanhado através da Pixel Magazine.
Mas mesmo não tendo sido concluída já da para perceber que DMZ é um grande, na minha opinião um dos melhores títulos surgido nos últimos 10 anos, tão bom quanto fábulas e em vários pontos, muito superior. O grande mérito de DMZ é conseguir algo que poucos quadrinhos conseguiram, trazer a discussão de um tema atual para uma mídia pop, e a exemplo de Maus, Gen e Watchmen, DMZ fala sobre a guerra.
O diferencial está na premissa da história e seus possíveis desdobramentos, essa guerra se passa nos EUA, seria uma segunda guerra civil americana. Nessa realidade alternativa o governo americanos levou tão a sério a guerra contra o terror que acabou por enviar a maioria de suas tropas para o exterior, com isso suas defesas internas foram enfraquecidas, pessoas insatisfeitas com o governos começaram a organizar milícias, essas milícias se tornaram Os Exércitos Livres, esse exército avançou do meio dos EUA até a costa leste, mas o exército americano conseguiu fazê-los parar em Nova York. Aqui onde a história é narrada, Manhattan se torna uma DMZ (Zona desmilitarizada) um território neutro para os dois exércitos, na ilha ficaram apenas 400.000 pessoas, na sua maioria pobres. A história é contada sob a perspectiva de um repórter, Matty, que é enviado por uma grande rede de televisão como apoio (orelha mesmo) para uma equipe de reportagem, após um ataque que resulta na morte de todos os membros da equipe, Matty acaba sendo o único reporte no meio do conflito.
Um dos pontos fortes da história são as interações entre as diferentes perspectivas das pessoas envolvidas direta ou indiretamente nesse combate. Matty começa indiferente a tudo aquilo por uma série de acontecimentos e decepções acaba se envolvendo cada vez mais com as pessoas na DMZ, isso o leva a rever vários de seus valores e opiniões em relação ao conflito e a sua profissão. Existe um romance entre dois atiradores snipers, assim como várias pessoas que não estão nem ai para nenhum dos dois lados, que só querem continuar sua vida no lugar onde sempre moraram e outros que só pensam em lucrar em cima da desgraça dos outros. Acima de tudo isso, fica o engajamento jornalístico de Matty, com vários questionamentos e valores relativos à essa profissão e a influência de uma grande emissora em cima do trabalho dele, traduza isso em completa falta de ética ou princípios e pressão por mais notícias.
Outro mérito de DMZ e demonstrar que os quadrinhos são uma mídia como outra qualquer, não se trata de super-heróis, em DMZ não se trata nem mesmo de heróis, visto que tudo é muito nublado, seja a motivação de cada exército ou de vários de seus personagens, e ninguém ali esta muito a fim de se sacrificar para salvar o mundo. A exemplo de muitos outros títulos, DMZ é uma história contada em quadros, ponto para Burchielli que consegue explorar vários recursos que só esse meio consegue oferecer.
Não sei o quanto DMZ pode levar os americanos a repensarem suas idéia sobre uma guerra, já que a história se passa em Nova York, nem sei esse seria o principal objetivo de Brian Wood, o que da para perceber é que Wood antes de tudo quis contar uma boa história, muito bem embasada e com personagens bem humanos.

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Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

 

A Grande arte, Rubem Fonseca (fragmento)

"Você tomou banho?"
"Tomei."
"Onde estava essa camisola?"
"Na minha saca. Você gosta dela?"
"Você sabia que isso ia acontecer?"
"Isso exatamente, não."

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"O que você gosta de fazer na cama?"
"Me ensina. Quer quer eu tire a camisola?"
"Temos tempo. Eu gosto de falar."
"Então fala."
"Conjugar os estímulos físicos com os verbais."
"Conjuga."

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"Você esta com vontade?" (O amor purifica o sexo.)
"Vontade de que?"
"Você sabe" (ainda na cama, sem tomarmos café).
"Diz."
"Isso te excita, não é? Falar bobagem" (ah, as mulheres).
"É. Fala, então."
"Você esta com vontade de ––."
"Sim. Elabora, com mais sentimento."
"Você esta com vontade de me foder?"
"O que mais?"
"De enfiar esse pau grande na minha boceta?"
"A pomposidade venturosa e festiva das palavras obscenas."
"Por que pomposidade?"
"A extravagância fanfarrã da ostentação gloriosa do desejo. A potência física causando a soberba."

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