horamorta

Domingo, Abril 11, 2010

 

De como o mulato Porciúncula descarregou seu defunto


"Todo homem tem seu orgulho, ele viu que (o romance) era sem jeito, era muito sofre, não estava para morrer de xodó, que é a morte pior de todas"

De como o mulato Porciúncula descarregou seu defunto não é bem um livro. Ele não é totalmente livro não por não se enquadrar como objeto, em primeridade, sim, ele é um livro. Mas é mais que isso, é mais que livro, mais que papel, mais que tinta colorida, muito mais; é uma imersão, uma experiência, um seqüestro voluntário à Bahia de Jorge Amado.

A textura do papel, o formato menor, mais pessoal, pequenos detalhes como a bordas arredondas, fazem quase uma jóia, parece besteira mas agregam valor, criam sinergia, transmitem a poética da história. Os desenhos de Andrés Sandoval, o mesmo que ilustra as crônicas da Piauí, são soberbos, duros, fortes, coloridos um que de xilogravura, um que de grafismo africano, as muitas imagens atiçam o imaginário. Letras grandes, espaçamento generoso, o avanço no/do romance com as páginas sendo viradas.

Estamos em um bar, na periferia de Salvador, Alonzo o dono do bar conversa com Tereza e Porciúncula, narrador e herói. Com um copo de pinga na mão, e de sotaque carregado, ficamos a ouvir de conto de ouvido:

"Maria deitava com um e com outro, se animava na hora, não era que não gostasse. Mas depois de terminado, terminado estava, nem queria conversar. Gostar mesmo, desse gostar sem fim, de xodó doendo de sofrer por não ver, etc. e tal, ah! ela nunca gostou de nenhum. A não ser que tivesse gostado do mulato Porciúncula, mas, então, por que nunca dormiu com ele? Ficava com ele sentado na areia, metendo os pés dentro d'água, brincando com as ondas, espiando o fim do mar que ninguém consegue enxergar. Quem já viu o fim do mar? Algum dos distintos? Desculpem, mas não creio."

A obra maior que a obra, dois artigos após o descarrego do defunto, esclarecem e geram mais dúvidas, com todo respeito aos irmãos Grim, isso que é conto de fada, droga, porque não comprei o milagre dos pássaros? bom, isso fácil se resolve. Jorge Amado, cinco livros e contando, mal espero pelo sexto.

PS: estava a escrever o post e a minha surpresa quando o Word me corrige, “é mulato Porciúncula, com assento”. Nome próprio e no dicionário, grande Porciúncula, como nunca tinha ouvido falar dele antes?!?

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