
O vinho fora adquirido em São Paulo, uma semana após eu completar meus 30 anos; posteriormente, o livro foi jocosamente apontado por amigos como indicador de uma suposta crise de meia idade. Preguei-me uma peça, rá!
Adquiri o meu Pergunte ao pó na mesma semana. John Fante e seu alter ego Arturo Bandini são amigos meus já faz um tempo, conheci os dois por intermédio do Johnny, que me emprestou o seu Pergunte ao Pó.
Nessa compra, levei também "As Cidades inexistentes" do Ítalo Calvino e o "de como o Mulato porciúncula descarregou seu defunto" de Jorge Amado. Não queria nenhum desses livros, só os autores, do Fante queria o Espere a primavera Bandini, do Jorge Amado queria Mar Morto - mas só se fosse da edição nova - e o pobre Calvino, nada queria dele. No lugar deste procurava O Lobo na Estepe, cujo o autor eu não lembrava...
- Herman Hesse! Disse o vendedor de cabelos compridos, camisa pólo azul, calça jeans e all star. Os seus parcos rendimentos assim limitavam sua indumentária de forma que não era facilmente associado a nenhuma tribo urbana, ficava em uma zona cinza, genérica, ali orbitando entre fã de metal / estudante de filosofia / dançarino de forró.
O vinho é uma coletânea de contos, a grande maioria relata a infância de uma família de imigrantes italianos cuja os filhos são nascidos nos Estados Unidos. O livro tem momentos engraçados, como Jimmy Toscana que tem vergonha de ser descendente de italiano e se diz filho de argentinos ou quando este, adulto e ateu, se vê rezando o pai nosso em latim após ter sobrevivido a um terremoto.
Há também um enterro, uma crise conjugal, vários ritos de passagem (primeira comunhão, primeira surra levada, primeira surra dada) e um time de futebol formado por descendentes de italianos, franceses, japoneses, chineses, alemães, suecos, portugueses (o time se chama All-Americans, claro) que enfrenta o time da fábrica de enlatados cujo o principal jogador é o "irlandês" Haragomo.
O que mais me gostei nesses contos é similaridade da cultura brasileira com a italiana, os estereótipos familiares, a culpa católica, a religiosidade, a não-religiosidade, os constrangimentos sociais e familiares, bem mais próximos de nós do que poderia supor.
Assim como Arturo Bandini, Jimmy Toscana virou um bom companheiro.
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